quarta-feira, dezembro 22, 2010

Ao amor que não ficou

Minha primeira lágrima caiu dentro dos teus olhos.
Tive medo de a enxugar: para não saberes que havia caído.
No dia seguinte, estavas imóvel, na tua forma definitiva,
modelada pela noite, pelas estrelas, pelas, minhas mãos.
Exalava-se de ti o mesmo frio do orvalho; a mesma
claridade da lua.
Vi aquele dia levantar-se inutilmente para as tuas
pálpebras, e a voz dos pássaros e das águas correr
-sem que a recolhessem teus ouvidos inertes.
Onde ficou teu outro corpo? Na parede? Nos imóveis?
no teto?
Inclinei-me sobre o teu rosto, absoluta, como um espelho,
E tristemente te procurava.
Mas também isso foi inútil, como tudo mais.

Neste mês, as cigarras cantam
e os trovões caminham por cima da terra,
agarrados ao sol.
Neste mês, ao cair da tarde, a chuva corre pelas montanhas,
e depois a noite é mais clara,
e o canto dos grilos faz palpitar o cheiro molhado do chão.
Mas tudo é inútil,
porque os teus ouvidos estão como conchas vazias,
e a tua narina imóvel
não recebe mais notícia
do mundo que circula no vento.
Neste mês, sobre as frutas maduras cai o beijo áspero
das vespas...
-e o arrulho dos pássaros encrespa a sombra,
como água que borbulha.
Neste mês, abrem-se cravos de perfume profundo e obscuro;
a areia queima, branca e seca.
junto ao mar lampejante;
de cada fronte desce uma lágrima de calor.
Mas tudo é inútil,
porque estás encostada à terra fresca,
e os teus olhos não buscam mais lugares
nesta paisagem luminosa,
e as tuas mãos não se arredondam já
para a colheita nem para a carícia.
Neste mês, começa o ano, de novo,
e eu queria abraçar-te.
Mas tudo é inútil:
eu e tu sabemos que é inútil que o ano comece.

Minha tristeza é não poder mostrar-te as nuvens brancas,
e as flores novas como aroma em brasa,
com as coroas crepitantes de abelhas.
Teus olhos sorririam,
agradecendo a Deus o céu e a terra:
eu sentiria teu coração feliz
como um campo onde choveu.
Minha tristeza é não poder acompanhar contigo
o desenho das pombas voantes,
o destino dos trens pelas montanhas,
e o brilho tênue de cada estrela
brotando à margem do crepúsculo.
Tomarias o luar nas tuas mãos,
fortes e simples como as pedras,
e dirias apenas: “Como vem tão clarinho!”
E nesse luar das tuas mãos se banharia a minha vida,
sem perturbar sua claridade,
mas também sem diminuir minha tristeza.

Escuto a chuva batendo nas folhas, pingo a pingo.
Mas há um caminho de sol entre as nuvens escuras.
E as cigarras sobre as resinas continuam cantando.
Tu percorrias o céu com teus olhos nevoentos,
e calcularias o sol de amanhã,
e a sorte oculta de cada planta.
É amanhã descerias toda coberta de branco,
brilharias à luz como o sal e a cânfora,
tomarias na mão os frutos do limoeiro, tão verdes,
e entre o veludo da vinha, verias armar-se o cristal dos bagos.
E olharias o sol subindo ao céu com asas de fogo.
Tuas mãos e a terra secariam bruscamente.
Em teu rosto, como no chão,
haveria flores vermelhas abertas.
Dentro do teu coração, porém, estavam as fontes frescas,
sussurrando.
E os canteiros viam-te passar
como a nuvem mais branca do dia.

Um jardineiro desconhecido se ocupará da simetria
desse pequeno mundo em que estás.
Suas mãos vivas caminharão acima das tuas, em descanso,
das tuas que calculavam primaveras e outonos,
fechadas em sementes e escondidos na flor!
Tua voz sem corpo estará comandando,
entre terra e água,
o aconchego das raízes tenras,
a ordenação das pétalas nascentes.
À margem desta pedra que te cerca,
o rosto das flores inclinará sua narrativa:
história dos grandes luares,
crescimento e morte dos campos,
giros e músicas de pássaros,
arabescos de libélulas roxas e verdes.
Conversareis longamente,
em vossa linguagem inviolável.
Os anjos de mármore ficarão para sempre ouvindo:
que eles também falam em silêncio.
Mas a mim – se te chamar, se chorar – não me ouvirás
por mais perto que venha, não sou mais que uma sombra
caminhando em redor de uma fortaleza.
Queria deixar-te aqui as imagens do mundo que amaste:
o mar com seus peixes e suas barcas;
os pomares com cestos derramados de frutos;
os jardins de malva e trevo, com seus perfumes
brancos e vermelhos.
E aquela estrela maior, que a noite levava na mão direita.
E o sorriso de uma alegria que eu não tive,
mas te dava.

Tudo cabe aqui dentro:
vejo tua casa, tuas quintas de fruta,
as mulas deixando descarregarem seirões repletos,
e os cães de nomes antigos
ladrando majestosamente
para a noite aproximada.
Tange a atafona sobre uma cantiga arcaica:
e os fusos ainda vão enrolando o fio
para a camisa, para a toalha, para o lençol.
Nesse fio vai o campo onde o vento saltou.
Vai o campo onde a noite deixou seu sono orvalhado.
Vai o sol com suas vestimentas de ouro
cavalgando esse imenso gavião do céu.
Tudo cabe aqui dentro:
teu corpo era um espelho pensante do universo.
E olhavas para essa imagem, clarividente e comovida.
Foi do barco das flores, o teu rosto terreno,
e uns líquens de noite sem luzes
se enrolaram em tua cabeça de deusa rústica.
Mas puseram-te numa praia de onde os barcos saíam
para perderem-se.
Então, teus braços se abriram,
querendo levar-te mais longe:
porque eras a que salvava.
E ficaste com um pouco de asas.
Teus olhos, porém, mediram a flutuação do caminho.
Por isso, tua testa se vincou de alto a baixo,
e tuas pálpebras meigas
se cobriram de cinza.

O crepúsculo é este sossego do céu
com suas nuvens paralelas
e uma última cor penetrando nas árvores
até os pássaros.
É esta curva dos pombos, rente aos telhados,
este cantar de galos e rolas, muito longe;
e, mais longe, o abrolhar de estrelas brancas,
ainda sem luz.
Mas não era só isto, o crepúsculo:
faltam os teus dois braços numa janela, sobre flores,
e em tuas mãos o teu rosto,
aprendendo com as nuvens a sorte das transformações.
Faltam teus olhos com ilhas, mares, viagens, povos,
tua boca, onde a passagem da vida
tinha deixado uma doçura triste,
que dispensava palavras.
Ah, falta o silêncio que estava entre nós,
e olhava a tarde, também.
Nele vivia o teu amor por mim,
obrigatório e secreto.
Igual à face da Natureza:
evidente, e sem definição.
Tudo em ti era uma ausência que se demorava:
uma despedida pronta a cumprir-se.
Sentindo-o, cobria minhas lágrimas com um riso doido.
Agora, tenho medo que não visses
o que havia por detrás dele.
Aqui está meu rosto verdadeiro,
defronte do crepúsculo que não alcançaste
Abre o túmulo, e olha-me:
dize-me qual de nós morreu mais.

Hoje! Hoje de sol e bruma,
com este silencioso calor sobre as pedras e as folhas!
Hoje! sem cigarras nem pássaros.
Gravemente. Altamente.
Com flores abafadas pelo caminho,
entre essas máscaras de bronze e mármore
eterno rosto da terra.
Hoje.
Quanto tempo passou entre a nossa mútua espera!
Tu, paciente e inutilizada,
cantando as horas que te desfaziam.
Meus olhos repetindo essas tuas horas heróicas,
no brotar e morrer desta última primavera
que te enfeitou.
Oh, a montanha de terra que agora vão tirando do teu peito!
Alegra-te, que aqui estou,
fiel, neste encontro,
como se do modo antigo vivesses
ou pudesses, com a minha chegada, reviver.
Alegra-te, que já se desprendem em tábuas que te fecharam,
como se desprendeu o corpo
em que aprendeste longamente a sofrer.
E, como o áspero ruído da pá cessou neste instante,
ouve o amplo e difuso rumor da cidade em que continuo,
-tu, que resides no tempo, no tempo unânime!
Ouve-o e relembra
não as estampas humanas: mas as cores do céu e da terra,
o calor do sol,
a aceitação das nuvens,
o grato deslizar das águas dóceis,
tudo o que amamos juntas.
Tudo em que me dispersei como te dispersaste.
E mais esse perfume de eternidade,
intocável e secreto,
que o giro do universo não perturba.
Apenas, não podemos correr, agora,
uma para a outra.
Não sofras, por não te poderes levantar
do abismo em que te reclinas:
não sofras, também,
se um pouco de choro se debruça nos meus olhos,
procurando-te.
Não te importes que escute cair,
no zinco desta humilde caixa,
teu crânio, tuas vértebras,
teus ossos todos, um por um...
Pés que caminhavam comigo,
mãos que me iam levando,
peito do antigo sono,
cabeça do olhar e do sorriso...
Não te importes. Não te importes...
Na verdade, tu vens como eu te queria inventar:
e de braço dado desceremos por entre pedras e flores.
Posso levar-te ao colo, também,
pois na verdade estás mais leve que uma criança.
- Tanta terra deixaste porém sobre o meu peito!
irás dizendo, sem queixa,
apenas como recordação.
E eu, como recordação, te direi:
- Pesaria tanto quanto o coração que tiveste,
o coração que herdei?
Ah, mas que palavras podem os vivos dizer aos mortos?
E hoje era o teu dia de festa
Meu presente é buscar-te:
Não para vires comigo:
para te encontrares com os que, antes de mim,
vieste buscar, outrora.
Com menos palavras, apenas.
Com o mesmo número de lágrimas.
Foi lição tua chorar pouco,
para sofrer mais.
Aprendi-a demasiadamente.
Aqui estamos, hoje.
Com este dia grave, de sol velado.
De calor silencioso.
Todas as estátuas ardendo.
As folhas, sem um tremor.
Não tens fala, nem movimento nem corpo.
E eu te reconheço.
Ah, mas a mim, a mim.
Quem sabe se me poderás reconhecer!


Os oito poemas que compõem “Elegia”estão colocados ao
final do volume Mar Absoluto (1945), e uma informação
após o título indica as datas de 1933-1937, anos durante os
quais a “Elegia” teria sido escrita.


©Cecília Meireles
in Mar Absoluto, 1945


sexta-feira, dezembro 17, 2010







"Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo..."


Álvaro de Campos 

domingo, dezembro 12, 2010

Todas as forças




A menina conta, os velhos contam, as mulheres africanas evocam.
Aos orixás peço licença poética,
Aos ancestrais irmãos peço sua dança,
Aos meninos cristãos peço sua devoção.

Eu canto, tu cantas, elas fazem seus rituais.
Os guerreiros negros suas forças,
As mulheres pretas suas armas,
A Iansã proteção.

Os pais, filhos e irmãos convocam para libertação.
Vamos ouvir os cantos,
Vamos ouvir os brancos,
Vamos sem medo pisar este chão.

Vamos nos dar mãos de cores distintas,
E na hora do eco
Uma só benção!

Cecília Tavares
12.12.10

O vento



Por passa o vento tudo exala.
Conta da miséria que não deixou a casa ser terminada.
O vento tudo conta.
Conta da fome que se fez mais fome,
Conta da sorte que não estava predestinada.
Para o vento tudo é migalha.
A pobreza tem cheiro.
Cheiro da água que não vem, do marido que não tem, da barriga engravidada.
Cheiro do cheiro da alma.
Até a saudade dói mais,
A farinha ficou escassa.
Até a menina é mulher mais cedo.
O vento tudo fala.
A pobreza não dormiu,
A pobreza fica na espreita, na espera anunciada.
Mais um dia passa. Só fica a coragem sertaneja.
O vento tudo espalha.


Cecília Tavares
12.12.2010

sexta-feira, dezembro 10, 2010

Sentimentos de um dia nutrido por cultura.







Certas leituras,certos caminhos,certas pessoas...
Como viver sem LITERATURA?
Não sei responder,apenas não imagino tamanha afronta com à arte.
(Cecília Tavares)



“Atravesso o rio da existência deixando que as águas me
levem, enquanto dou braçadas em direção ao norte dos
meus sonhos. Sonhar foi sempre a clave da minha condição
humana. Sem o devaneio – esta arte de inventar o
impossível –, invalido meu destino na terra. Cancelo Deus e
os meus semelhantes. Envelheço sem jamais ter sido
jovem.”
(Nélida Piñon)


“Eu pego num livro velho com reverência; sinto nele a
substância inerente a toda a criação do espírito: o desejo de
alongar as fronteiras da existência pela reflexão ou pelo
sonho acordado.”
(Carlos Drummond de Andrade)


“Todo símbolo tem uma carne, todo sonho uma realidade.”
(Oscar Milosz)

terça-feira, dezembro 07, 2010

Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens.
Fernando Pessoa



SINGELA
 
Entrego-te os sorrisos soltos,
as risadas mais leves,
entrego-te a liberdade.

    momentos de nudez dos meus pensamentos,
penso nas suas palavras,
                                              não era medo, mas quem sabe espanto...
                                  Além do toque dos corpos, 
                                                   além do limiar que nos encontramos,
                                               acendeu caminhos embora houvesse frio.

                                                Você deixou pássaros no meu quintal,
                                           sorrisos na minha janela,
                                     brilhos,
                                    mas,
                                                  perto das línguas, palavras são tolas.



Cecília Tavares
20h25min.
07.12.10

sábado, novembro 06, 2010




Sei que me enquadro em qualquer moldura.
Sei de todos os meus papéis nesse cenário,mas não encontrei todos os palcos para representar.
Somos artistas em pleno encontro natural, em metamorfoses constantes e subversivas. 

Somos o que podemos confundir com arte ou o oposto dela, mas seremos sempre uma poesia, 
em qualquer época ou parte, 
em qualquer cidade do mundo, 

sou meu guia, 
além do hoje. 

Corrente de ferros retorcidos e ácidos,
ferida em tecido corpóreo, 
fenômeno cortante da língua

Sou pontual comigo.
Sirvo-me ainda quente.


Cecília Tavares
06.11.2010

segunda-feira, novembro 01, 2010

Mais do que uma vitória de gênero

Um marco na história tem que ficar registrado.




DILMA,


"Agradeço muito especialmente e com emoção ao presidente Lula, ter a honra do seu apoio, o privilégio da sua convivência, conviver diariamente com ele me deu a exata dimensão do governante justo e do líder apaixonado por seu país e sua gente. A alegria que eu sinto hoje pela minha vitória se mistura com a emoção da sua despedida. Sei que um líder como o Lula nunca estará distante de seu povo", afirmou.

Dilma foi eleita presidente neste domingo (31) superando José Serra (PSDB) no segundo turno. O resultado foi anunciado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) às 20h13, quando ela já não podia mais ser alcançada pelo adversário.








Parabéns,Dilma!

quinta-feira, outubro 07, 2010











Canção do Dia de Sempre (Mário Quintana)


Tão bom viver dia a dia…
A vida assim, jamais cansa…
Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu…
E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência… esperança…
E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.
Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.
Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas…

quarta-feira, outubro 06, 2010


 




Suavidade

 Parada na esquina da minha visão,
 Com doçura te olhei, mas você não conseguiu perceber.
 Caminhamos lentamente com passos firmes de quem não sabia aonde chegaria.
 Difícil era conseguir te olhar, seus olhos estavam escondidos da minha exatidão de sentidos.
 Quando pude observar, estava mais que encantada com o seu sorriso.
 Como é leve cada gesto seu.
 Como são delicadas suas mãos...
 Admirar sua boca foi uma constante sábia... Que macia- doce... Boca de menina.
 Desejei-te sequestrar, caminhar com a brisa do mar, beijar lentamente... Sem pensar.
 Você não sabe, mas muitas vezes passei em frente a sua casa e observei seu jardim.
 Não sabia que era seu, apenas gostava de olhar aquele jardim...
Você é alguém que me cheira a rosas cultivadas a base de sal e mel.

 Fico encantada com as rosas...

Chegue sempre mais perto, vou gostar de mais uma vez poder te tocar.
E musicar suas rimas com o meu olhar, menina...

Cecília Tavares


Existe um ponto alto na  loucura que nos faz amar cada letra que juntas formam o seu significado; viver sem esperar pelo resto. Viver simplesmente por ser uma condição nos emprestada, sem um cheque assinado ou telefone para uma possível reclamação posterior ao nascimento." (Cecília T.)



segunda-feira, outubro 04, 2010



"Toda alma é uma música que se toca.
Quis muito ser pianista.Fracassei.Não tinha talento.
Mas descobri que posso fazer música com as palavras.
Assim, toco a minha música..."
(Rubem Alves)



Sinto saudade do que um dia nos coube conhecer,
lamento apenas o que desconhecemos olhando juntas.
Daquilo que não repartimos quando era possível.

Você deixou-me na boca uma vontade da volta,
um sabor de futuro,
um amor de aroma único.

O meu melhor com o seu melhor,
o que com o tempo juntamos
só nos cabe agora repartir....

Vamos nos reconhecer por todos os ângulos,
experimentar mais uma vez o amar.


Cecília Tavares,
Com amor.

04.10.2010

quarta-feira, setembro 29, 2010

Álvaro de Campos- Sou eu mesmo o trocado







Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.

Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.
E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconseqüente,
Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.
E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
De haver melhor em mim do que eu.
Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,
Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,
De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,
De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,
De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.
Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,
Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,
De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —
A impressão de pão com manteiga e brinquedos
De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,
De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela,
Num ver chover com som lá fora
E não as lágrimas mortas de custar a engolir.
Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado,
O emissário sem carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
A quem tinem as campainhas da cabeça
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.
Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.
Sou eu mesmo, que remédio! 

segunda-feira, setembro 27, 2010

Tenta Esquecer-me






"Deixar você onde encontra-se é uma forma de nunca te deixar passar..."(C.T)




Tenta esquecer-me… Ser lembrado é como evocar
Um fantasma… Deixa-me ser o que sou,
O que sempre fui, um rio que vai fluindo…
Em vão, em minhas margens cantarão as horas,
Me recamarei de estrelas como um manto real,
Me bordarei de nuvens e de asas,
Às vezes virão a mim as crianças banhar-se…
Um espelho não guarda as coisas refletidas!
E o meu destino é seguir… é seguir para o Mar,
As imagens perdendo no caminho…
Deixa-me fluir, passar, cantar…
Toda a tristeza dos rios
É não poder parar!

Mario Q.

sexta-feira, setembro 24, 2010

Uma parte do filme "O Leitor".



Não estou com medo
não tenho medo de nada.
Quanto maior o sofrimento,mais eu amo.
O perigo apenas intensifica o meu amor
aguça-o
apimenta-o
Serei o único anjo de que precisa
Deixará essa vida ainda mais bonita
do que quando a iniciou.
O paraíso vai ter rever
olhar para você e dizer:
"Apenas uma coisa pode tornar a alma completa,e essa coisa é o amor."


Bom final de semana,pessoas.

quinta-feira, setembro 23, 2010

Poeta-ema





Lambuzados nos seus significados
 [de tanto cheirar a livros
Incorporaram-se as grandes artes
Da Grécia aos não lidos
continuam a ser ofício para os nascidos sob os signos
[linguísticos.






Cecília Tavares
23.09.2010

Um fado




O fado é transpassar o que estamos fadados
É saborear em outros planos todas as auroras
Quem sabe não ser deixado,
Quem sabe não ser só legado,
Mas arte.


Cecília Tavares
23.09.2010

terça-feira, setembro 21, 2010

Morena






Graciosamente  lavada em amendoeiras
cheirando seu hálito ao néctar vermelho



ao sentir de tão perto, quase em demasia te quero.
Teu caminhar é sólido e vagaroso.
Teu atento me escutar estranha.
Toco porque o tocar é momento breve
e de sempre ouvir-te passar levito.

De sempre testemunhar os meus olhos deram para acreditar,
e de acreditar nas palavras é que vivo.
Com o tempo acontecerá de tanto querê-la.
Vou requerer você mesmo que esmiuçada ao meu legado poético.

Para que sejam teus os meus quereres,
para que não sobre lacuna alguma entre nós,
              quero.

Escritos um dia meus olhos podem ser versos
que ao morrer deixo como seus.

             Para nenhuma outra guardam amor maior que esse.

Cecília Tavares
            21.09.2010

Existência




Existência

    Cheguei cedo às vertentes que caminho
               Para o meu hoje sou novo.
               Verde como as oliveiras e tarde como os carvalhos.
               Gigante e pequenino nos atalhos.
               Gosto do sabor das tulipas guardando a primazia dos berços
               Aconchegantes e aveludados
               E assim como elas, dou para me colher por vezes cedo.
               Vou colocando adornos
               Em viver nada está além da poesia.

Cecília Tavares
21.09.2010

domingo, setembro 19, 2010

Afogados



De não se falar em pedras se faz os montes
Dos deixados se faz os ontens
E de se viver de constantes
Morre-se
Hoje.

Cecília Tavares
19.10.2010

sábado, setembro 18, 2010

Em vida




Quero o que da vida ela me quiser
Não a quero com medidas
Apenas há um querer implícito em apenas querê-la.
E por demais me tenho em trilogia
Se assim não me seja dado o prazer
Menos a quero
E se o tanto de assombro desmorone
Que eu seja sortilégio e desumano
Há vestígios na alma que me tornam poeta
e com o passar menos humano
Há profundos enganos nesta gota que me banho
De não mais me caber,
ainda sinto que amo.
E por amar ainda se vale viver.

Cecília Tavares
18.09.10